Conto “De onde os medos crescem” – Download Free

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Capa - de onde os medos crescem

Esta semana disponibilizei na parte de Downloads do meu site o conto “De onde os medos crescem”. O texto foi escrito como parte do processo de criação das minhas telas de pintura na série homônima.

Um artista que foi quem me mostrou que isso era possível e muito enriquecedor para um trabalho artístico foi o Tunga, que faleceu semana retrasada. Então como homenagem, dedico este conto e esse pdf á ele.

Para baixar clique na imagem acima ou aqui.

Segue abaixo uma reflexão sobre utilizar a literatura como processo para a pintura que escrevi na minha monografia de conclusão da graduação:

De onde as telas crescem: o conto como processo para a pintura.  

A literatura sempre fez parte da minha produção. E há alguns anos também desenvolvo minha pesquisa literária, com textos que tendem para uma atmosfera estranha, do fantasioso, onde os acontecimentos podem ser tidos como metáforas ou puro deslocamento da realidade. O que dá outro valor ao enredo do texto (pequenos detalhes ganham mais importância.)

Minha primeira experiência em unir texto e imagem, foi ainda no ensino médio. Onde fiz uma pequena exposição onde cada desenho tinha um texto ao lado.

Os textos poéticos vieram a partir dos desenhos e relacionava os elementos das imagens com a palavra. Estes textos não eram explicações nem descrições das telas, também não eram interpretações, mas por serem postos lado a lado, e por se alimentarem de elementos semelhantes ambos compartilhavam e ampliavam sentidos.

Durante o decorrer do curso de bacharelado, nunca cheguei a repetir essa interação, apesar de ter esse desejo. Alguns motivos adiaram essa minha investida, tais como: a possível relação ilustrativa entre imagem e texto, o direcionamento de interpretação da obra; e a indagação “se o texto já diz tudo que tem que dizer, qual seria então o sentido dessa imagem?”

Porém com meus questionamentos e experiências na procura de métodos para se construir uma imagem, cheguei, com a ajuda de orientadores, a estratégia de ler um livro, um romance inteiro, e fazer uma única pintura sobre este livro. Ser tomado por suas sensações  e estímulos tirando dele os elementos para se construir a pintura.

Este desafio trouxe novamente as antigas questões, mas trouxe também uma nova forma de pensar as imagens da pintura, suas relações e estruturas. Apesar de ficar satisfeito com o resultado dessa experiência, não era meu propósito inicial, usar um novo texto para esse projeto de conclusão.

Durante as minhas leituras de pesquisas para o pré trabalho de conclusão de curso, no entanto, entrei novamente em contato com um livro de artista que me deu a certeza de que era possível fazer essa relação entre uma obra ( de qualquer natureza: escultura, gravura, desenho, pintura, performance etc.) e um texto que sirva como fonte “mitológica”, processo de criação.

Este livro foi “O Barroco de Lírios” do artista Tunga (1952-)[1]. Neste livro o artista reúne algumas das suas obras mais importantes. A partir desses registros, vai mostrando o inicio de vida dos temas que utiliza e seus desdobramentos em diferentes trabalhos. Como inicio de cada trabalho Tunga coloca um texto, conto, relato, ou documento que fala da construção dessa obra, a idéia inicial, as referências e desdobramentos.

Porém esse relato, muitas vezes, como acontece, por exemplo, no texto “Xifópagas Capilares entre nós”[2] tem uma liberdade literária, que foge da realidade para criar um universo intrigante que envolve o leitor e mistura fatos reais com mitos e imaginação.  Esta aura vai impregnar suas esculturas e desenhos e darão uma unidade a elas.

Foi partindo desse pensamento que desenvolvi o conto[3] “De onde os medos crescem”[4] que une em sua construção as imagens vestígio, anotações de sonhos e relatos de história de família que são mais bem explicados no Anexo 2.

Até então todas as minhas pinturas anteriores vinham de um exercício de imaginar a construção da pintura relacionando símbolos a minha escolha, tentando preencher o campo de trabalho e dividindo as em camadas em busca de uma sensação intuída, mas pouco materializada.

Minha experiência na literatura me fez perceber a forma em que um conto ou texto é criado. Ao escrever a narrativa precisa-se passar credibilidade ao leitor, e também  conduzí-lo de forma que todas as palavras, frases e pontuação tenham uma importância determinante. É preciso cuidado, pode-se comparar a montagem de um quebra-cabeça, cada peça (frase) se encaixa em seu lugar, formando a imagem desejada.

Assim, ao inserir um contexto, as ações e símbolos que fazem as imagens precisam ser justificados textualmente, e vão compor um universo. O universo de um conto tem suas próprias regras (às vezes usando as regras do nosso mundo, ou criando novas) e elas precisam ser atendidas para dar sequência a história.

Acontece que seguindo essas regras de construção, o conto tem uma “vida própria”. Sendo assim, parto de uma idéia inicial para o texto, tenho minhas vontades, quero que determinados acontecimentos sejam a chave desse texto. Porém, para justificá-los vou inserir elementos, peças do quebra-cabeça, que não tinha em mãos a priori, mas que são fundamentais na formação do sentido do texto e da imagem que vai trabalhando os elementos pictóricos.

Esta força do enredo me faz construir imagens que eu não teria imaginado de imediato, pensar relações que necessitam de uma lógica diferente para se unir. Existe nesse sentido “um outro tipo de relação entre palavra e imagem” uma “experimentação verbalizada[5]. Assim “a narrativa verbal prepara uma futura ação plástica”[6].

Foi atrás desta lógica textual que foquei as minhas coletas de imagens e sonhos, defini temas, sentimentos e sensações para transpô-las para a série de pinturas apresentadas. Materializando e desenvolvendo aquelas sensações e imagens que antes eram apenas intuídas. Sendo assim, o conto “De onde os medos crescem” é  como um banco de imagens, que foi inicialmente pensado para a pintura, desenvolvido textualmente e novamente transposto para tela.

Este método de tradução de uma linguagem em uma segunda é conhecido como tradução Intersemiótica[7] e é objeto de estudo de Julio Plaza em seu livro homônimo. Plaza nos trás a seguinte definição:

 

“ A tradução Intersemiótica ou ‘transmutação’ foi definida por Roman Jakobson como sendo aquele tipo de tradução que ‘consiste na interpretação dos signos verbais por meio de sistemas de signos não verbais’ ou ‘de um sistema de signos para outros, por exemplo, da arte verbal para a música, a dança, o cinema e a pintura’ ou vice-versa”. (Plaza. 2001)

 

Como é dito por Plaza em seu livro, a tradução Intersemiótica nada tem a ver com fidelidade “pois ela cria sua própria verdade e uma relação fortemente tramada entre seus diversos momentos[8].

Quero dizer com isso que diferente do conto, as telas não tem uma dependência narrativa entre elas, e nem em relação ao texto. Não tento transformar, resumir ou capturar o conto em uma imagem, a tela não tem esse compromisso. Preocupo-me em me apropriar da relação interna do texto, de alguns estímulos e levá-los para o campo pictórico, fazendo que encontrem sua própria existência de acordo com meus procedimentos de pintura. Capturas diferentes momentos, ações e significados e traduzidos em uma imagem.

Em contexto expositivo as telas não dependem do conto, não pretendo apresentar o texto no espaço junto com a tela. E nem mesmo a montagem das telas no espaço precisa seguir a ordem em que elas surgem no conto, pois cada pintura fala de si mesma.

[1] Artista brasileiro ( Palmares, PE). Escultor, desenhista, artista performático.

[2] TUNGA. Barroco de Lírios. São Paulo: Cosac & Naify, 1997 p. 45

[3] Apesar de empregar o termo conto, este não é o mais apropriado para definir o texto referido por ter uma estrutura mais complexa. Porem decidi usar o termo pelo que ele representa (uma história curta).

[4] Anexo 2 p.42

[5] SALLES, C. A., 2003 : 95

[6] SALLES, C. A. 2003 p: 95

[7] PLAZA, 2001: 01

[8] Idem: 01

Uma resposta

  1. Muito interessante.

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